Sábado, 11 de Abril de 2009

E pela primeira vez, depois de três semanas,
escorreu no meu rosto uma lágrima tua.
Essa noite sonhei com você,
com seus amigos,
com o seu ponto de ônibus,
e você me dizia, parado ali esperando,
o quanto gostava de ser assim,
de ter virado o que virou,
e não poeira.
Espero você me dizer isso, em realidade,
se é o que queres, quem sabe,
mas irá me dizer assim: manso, sereno: gosto de sermos amigos.
Não chorarei mais,
não por dentro,
não por você.
Que talvez isso que pareça um erro seja só mais uma porta fechada,
e pouco importa que as janelas estão todas emperradas.
Pro inferno essas malditas portas e janelas!

Sábado, 28 de Março de 2009

a deus dará

Algo como um livro na prateleira,
que segue queimando entre dedos,
quando um olhar longíquo, que avistaria outro terra se, na verdade, não estivesse pensando apenas no absoluto do nada.
Que você era assim,
um inteiro, um absoluto,
e sua manifestação era essa: de olhar fundo, não nos olhos, olhar lá na poeira da alma, pra depois partir no ônibus das sete sem nem um beijo no rosto.
Li e reli tantos livros de de jardinagem pra dizer: olha,você é assim uma orquídea,
não rosa, não espinho, não você.
E você não era nada além de alguem que deixava queimar entre os dedos uma bituca de cigarro.
Queria, queria mesmo te dizer sobre você todas as coisas que recolhi enquanto te observava de longe.
Você tem as costas curvas, como quem cansou de andar,
Seu sorriso é falso, maneira exata de coexistir com todos os outros.
Seus olhos são secos e opacos, mas nem sei dizer se são azuis ou castanhos.
Que isso não tem a menor importância, eu sei,
mas te enchergo como quem avistou a terra distante e deu as costas,
digo, se ali tinha um lindo laguinho ou frutos gostosos,
eu não sei, mudei de rumo antes de ancorar meu barquinho por perto.
Porque barquinho é coisa assim, você sabe,
não é navio que afunda, nem veleiro que depende de vento,
é coisa do mundo, que se coloca na água corrente e deixa fluir.
Barquinho de papel, de infância, que vai correnteza abaixo e você faz outro,
e barquinho vai ser sempre rascunho.
Só queria te dizer que meu barquinho é de ninféias, que precisa de água, que precisa de fluir,
que se você é terra firme, e você é, não tem chuva que faça ser feliz.

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Conto in-findo.

Se volto,
é pelo mesmo motivo que tive de partir.
E voce há de entender,
por céus, quem melhor que você para entender todas minhas idas e vindas!
Sei que pensas que ela te ouviu com interesse,
que de alguma forma você tem algo a contar que inspire,
e não me questione qual é a maldita inspiração que procuro,
ou que ela deveria procurar em você;
Creio que sim, que ela foi capaz de enxergar em mim aquilo que eu não vi em você,
e deveria ter visto (penso em silêncio),
através dum espelho ou apenas daquilo que fomos capazes de dividir em meio a tantas tardes.
Mas não sinto,
se sentes muito, não sei, não sinto. Digo que não sinto pra mim,
toda vez que soluço sozinho em casa,
chorando meu grande amor perdido e culpando a ti.
Certamente questiona-se qual foi a razão de minha volta,
já que nunca foi capaz de entender porque eu sumi no mundo sem te avisar.
Você teve todas as chances, absolutamente t-o-d-a-s as chances de me encontrar,
de me sentir, de me perpetuar,
mas sua relutância em aceitar a vida como ela é te fez assim,
triste.
Você é uma pessoa triste.
Não sinto pena de você,
talvez você sinta de mim.
Mas, o que se há de fazer?
Tenho passado noites acordado, sofrendo,
sem entender todas as formas que você buscou para me derrubar,
sem entender todas as vezes que cai na sua conversa,
e chorando previamente as dores que me causará.
Nunca senti. Nunca amor,
mas no teu nome, quando penso, tem um dolorido sem fim,
que nem com mil cores se tranformaria.
Você doi demais.
E se em mim sinto isso,
mesmo assim tão distante,
mesmo depois de tanto tempo,
tento imaginar o quanto você não se doi em você.
Em quanto não chora sozinha no quarto. Sozinha.
Pensas ainda qual foi o erro?
Meu ou seu, nem sabe dizer;
Mas sei, foi você.
Com sua infinita falta de sinceridade com todos,
com seus forjados carinho, simpatia, e todas essas coisas que até pra te dizer doi.
Não te digo verdades.
Tenho meu orgulho,
digo aquilo que te fere,
pois sem pensar muito no que dizer você me feriu;
Você olha pela porta, desesperada,
espera o telefone tocar,
debruça na janela e ninguém nunca chega.
Talvez chegue tarde, para você,para ela.

Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Bicho de sete cabeças

- Mando postais velhos, guardo os novos para envelhecer;
- Meus discos não tocam;
- Meu quarto não tem janela e sim uma claraboia; A minha luz vem de cima, não é lateralizada;
- Ainda guardo todas as fitas que um dia embrulham presentes;
- Ao acordar, espero os passarinhos cantarem e desço da cama com o pé direito. Sempre;
- Amanhã, sem falta, colocarei aquelas flores no centro da sala;
- Estou trabalhando mais do que deveria e estou gostando;
- Eu ainda largo copos no quarto, toalha na cama e cobertor na sala;
- E estou assim, completamente realizada.

De todas as portas, de todos os portos,
todo o caos, toda a casa, todo cais,
dedico e dedicarei a ti.

Amanhã ela virá aqui,
e te ligarei dizendo estar tudo bem, vou ao centro e só volto a noite.
E estou bem, completamente feliz,
Sim, continuo a mentir,
para que você fique tranquila.

A Rita Lee deu cria,
o Raul seixas morre de ciumes de seus filhotes.
E quem diria?


Toca no rádio aquela música, sabe aquela?
"A vida é tão desconhecida e mágica"

Assim me despeço,
com carinho,

Do teu unico verdadeiro amor,
da tua unica filha.

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Codificação

Tua sina
em meu sorriso
E o teu riso
na minha cena
Sem prosa,
sem texto
Seu roteiro:
último adeus
um próximo beijo
Aplaudam!
Me vejam morrer
Aplaudam!
Me façam sangrar
Aplaudam!
As cortinas nunca
se fecharam

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Retrato de mãe

Recolhe, sua puta, essa sujeira.
- Dá meu dinheiro!
Recolhe essa sua calcinha velha, esse vestido horrível, recolhe, recolhe.
- Dá meu dinheiro!
E você por acaso vale esses 20 reais?
E a puta chora, porque sabe que não vale.
- O que? o que? O que mais você quer?
Recolhe, sua puta, a tua própria opinião, e vê se para de chorar.
E a puta recolhe a roupa, recolhe-se ao canto.
Se veste, sua puta, põe essa porra que chama de vestido, e vá fazer de novo essa merda mal feita que você faz.
E a puta chora, a puta tira a maquiagem, a puta se veste pra fazer o que faz.
Engole esse soluço, sua puta! Você é uma vadia, uma criada,
não tem direito de sentir, nem prazer!
- Dá meu dinheiro.
Dinheiro pra que, vadia? Você não tem nada pra pagar, você não tem vida, você não come, não bebe, só dá.
E a puta cala-se, porque dá sem prazer e continua a dar.
Vai embora, sua puta, esses vinte reais são só por uma hora.
E a puta sobe no seu salto velho, pega o dinheiro na escrivaninha, bate a porta e chora.A puta foi embora em quinze minutos porque quebrou o retrato da mulher e filhos bem quando ele ia gozar.

Terça-feira, 27 de Novembro de 2007

Espero que ela use vermelho. na alma.
Que venha sorrindo . sem calma.
E entorne todos os copos. os corpos.
Abra todas as janelas. com pressa.
E depois derrube todas as paredes.
Para que eu me sinta frágil . e protegida.
Para que eu sinta.
E então que ela cresça . desesperada.
E eu assista a tudo. esperando.
Espero que ela venha trazendo vento.
E venha sem medo. sem sono.
Que venha. sem poeira, sem dor.
E traga algo além do que se é desesperado. inesperado.
Espero.

[-poema para um término . amor]